Rachel Belo

Archive for January, 2007

Post #4 – Um brinde à covardia.

In Uncategorized on January 31, 2007 at 8:49 pm

Tentou mais uma vez se levantar. Ok. Um passo de cada vez. Lá fora o sol nascia novamente. Já tomava a segunda e a terceira respiração. Aquela que lhe prometeram a levaria para o ponto final.

Lá fora Thiago esperava para um passeio – novamente no parque. Havia dois dias que tinham se encontrado pela primeira vez naqueles últimos sete meses.

Abraçou o amigo. Ah! Como eram bons seus abraços. Tāo desiludidos como ela.

Vivi: Olá!
Thiago: Oi, Vivi!

Ambos forçavam um sorriso. Era possível sentir a respiraçāo – sempre ela – no quarto. A māe abriu passagem. Nāo sabia mais há quanto tempo tentava tirar a filha de dentro de casa.

Os dois partiram lado a lado. O grande segredo está em nāo precisar trocar palavras.

Thiago: Entāo, onde você quer ir? No parque mesmo?
Vivi: Nāo… eu estava pensando em ir lá…
Thiago: Lá???

Vivi apenas balançou a cabeça. Nunca tinha ido ao cemitério onde Alex tinha sido enterrado. Sabia que o amigo que caminhava com ela estivera no enterro, mas acreditava que também nāo tivesse voltado ao local.

No caminho continuaram em silêncio. Compraram flores. Queriam sorrir, ambos. Aquele era o princípio de uma recuperaçāo. Mas as feridas eram fortes demais para abrir sorrisos.

[Posso sorrir apenas com metade dos lábios? Como se a outra metade esperasse para desabrochar junto com todas as respostas e com todas as respiraçōes.]

 Dia 31 de Janeiro – Uma resposta a mais! Um passo a mais!

Sabe o que eu acho? Eu acho que a Ju devia escrever alguma coisa aqui. Farei greve até lá!

Post #3 – Um brinde à covardia

In Uncategorized on January 28, 2007 at 9:43 pm

A manhã seguinte foi como se tivesse tomado uma surras. Dessas que nunca tomou como criança. O corpo doia. Trazia a mente a lembrança de uma ressaca misturada a ocasião que tinha tido dengue.

Nem se lembraça ao certo quando tinha sido aquilo. Devia estar no início da faculdade ainda. O auge das ressacas. Ah, como eram boas. As ressacas, as bebedeiras. Os amigos.

Fechou os olhos. O corpo ainda doia. Novamentes as lembranças. Lembrou da vez que operou o braço – depois de cair sob ele ao pular um muro durante uma viagem. As doses de morfina. Os amigos.

Os amigos. Alex e Thiago estavam lá. Já não sabia mais quando tinha encontrado a dupla dinamica. Muitos eram as piadas sobre o triângulo amoroso que envolveria os três. Principalmente quando chegaram a faculdade vindo – juntos – de uma cidade do interior.

A verdade, porém, era que com eles se sentia como criança. Podia falar sobre as nuvens e sonhar em preto e branco. A verdade era que aquilo era único. Era o que trazia um sorriso ao resto e que dissipava toda a dor. De todas as ressacas. E todas as cirurgias.

 Agora era diferente. Era tudo isso que trazia a dor que sentia agora. Como se tivesse tomado uma surras. Dessas que nunca tomou como criança. O corpo doia. Trazia a mente a lembrança de uma ressaca misturada a ocasião que tinha tido dengue…

 [Sinto-me agora como no dia seguinte... Esses dias que o corpo doi. Não sei se posso culpar o sol por tamanha desventura. E tamanho desconforto. Mas a verdade é que a falta de respstas me mata. Pouco a pouco. Como se estivessem cortando o tal. Ah! O tal ar...]

Post #1 – Um brinde à covardia

In Uncategorized on January 26, 2007 at 4:25 am

– Ouvi certa vez que escrevo diferente quando há algo em minha mente. Que uso pontos demais. Que quebro as frases. Como se procurasse o ar que falta. Entāo em cada ponto há, na verdade, uma profunda respiraçāo. Dessas que falta quando você nāo está por perto.–

Ela estava a muito tempo reclamando de uma certa falta de perspectiva. Depois de meses olhando para o teto de seu – apertado – quarto começou a sentir certas pontadas na altura da costela. Decidiu, entāo, sair de casa. Encarar a luz do dia.
Nāo se lembrava a última vez que tinha visto a luz natural. Nem a noite saia mais. Nāo encontrava propósito.

Pegou o telefone. Discou um – apenas um – número. Adorava a tecnologia do speed dial. Olhou a tela do celular. Esperava que do outro lado ainda estivesse aquele que por meses tinha sido seu confidente e amigo, sem esperar nada em troca.

Nāo lembrava por quanto tempo Thiago tinha telefonado, insistentemente. Depois de um tempo o amigo já tinha desistido de ligar no número do celular. A resposta era sempre a mesma: “o número que você ligou está desligado ou fora da área de cobertura”. Passou a ligar entāo para a casa. A empregada já reconhecia a voz do rapaz. “Poxa, Thiago. Ela nāo vai atender mesmo. Nem sei mais que cor essa menina tem.”. Tempos depois o amigo parou de ligar.

Trim… trim…
Vivi: Tô com falta de ar.
Thiago: Tenta respirar fundo. Senta na cama. Se acalma.
Vivi: Nāo dá. Nāo dá mais. Preciso sair. Me encontra lá?
Thiago: Estou calçando o tênis. Em 20 minutos.

O amigo continua fiel. Sem perguntas. Sem esperar respostas.
Poucas sāo as pessoas que nāo esperam respostas. Na verdade, poucas sāo as pessoas que sabem esperar… o tudo, ou o nada…

A luz do dia quase machucava dos olhos. Se nāo fosse pelas pontadas na costela ela poderia jurar que era a mais incomoda dor que já sentira. Dessas que nāo tem razāo aparente, mas que também nāo vāo embora.

Seguiu em lentos passos. Demoraria uns 10 minutos para chegar no local marcado. O amigo ainda demoraria outros dez. Morava mais longe. O que faria enquanto esperava? Nāo sabia esperar. Nem o tudo, nem o nada.

Sentou-se a fitar o que deveria estar vivo. Mas que – assim como ela – nāo conseguia respirar. Olhou para os lados. Verde. Era tudo que via.

Finalmente ele chegou. Continuava com a mesma aparencia suave de sete meses atrás. Quando tudo começou a ir por água abaixo. Havia sete meses que ela se escondia da vida. Simplesmente porque havia sete meses que ela tinha visto a vida ir embora. Escolha dela mesmo. Tinha decido parar de respirar.

Tinha decidido que se havia morte, entāo que ela boicotaria a vida. Pararia de respirar. E veria os dias ir embora. Assim como tinha ido Alex. Assim como tinha ido embora o amigo que ela conhecia desde os cinco anos de idade. Assim como tinha ido embora o ar que ela conhecia. A forma que ela sabia respirar.

Se aproximou do amigo. Ele tinha esperado tanto tempo. Porque ele era desses, que sabem esperar… pelo tudo, ou pelo nada.

Thiago: Tente respirar. Uma dessas profundas respiraçōes.
Vivi: Nāo dá. Já nāo sei mais.
Thiago: Vamos lá. Você precisa. É o primeiro passo. Respirar.

O silêncio no parque era quase incômodo.
Aos poucos tudo que se ouvia era a respiraçāo do casal de amigos.
Aos poucos Vivi deixou de sentir a tal dor, na altura da costela. E a luz do dia parou de incomodar tanto.
Era o primeiro passo…
Era apenas a primeira respiraçāo em busca do ponto final.
Desses que nāo se acha quando você nāo está por aqui.

[Vivi e Thiago nāo se conhecem, mas ambos me acompanham na madrugada msneica de hoje. Se tornaram entāo personagens desse diálogo imaginário. As frases e indagaçōes aqui escrita nāo representam - ou representam, vai saber - a realidade de cada um. Sabe, como? Aquele papo de "tudo é uma obra de ficçāo e qualquer semelhança é mera coincidência."]